segunda-feira, 3 de setembro de 2012

vai-e-vem

As poesias que não saem da cabeça. O dia-a-dia mais longo do mundo. Nem 24 horas bastariam. As centenas de prosas e versos que eu nunca mostrarei. Nem pra mim mesma. As palavras que não disse. E as que disse. Os meninos malabaristas do canal. Eram professores. A Tia Ucha da segunda série e o seu violão. Os dias de brinquedo. A sexta-feira prometida. O dia da piscina. O corpo que se escondia. O salto olímpico mais alto que já dei. Que nunca se repetirá. As primeiras pulseiras. As miçangas. Junto com as linhas. O escorregador de tinta fresca. A piscina de bolinha que traumatizou. A primeira cachorra. O primeiro peixe. O cheiro da ração. Os dias de morte. A melhor batata frita do mundo. O quartinho da bagunça. O primeiro computador. Meu jornal de papel. As horas despendidas para o primeiro site. A banda favorita. O primeiro show da banda favorita. As poesias de $0,10 centavos. As férias em Peruíbe. O cheiro do cloro da piscina. O cheiro da baleia-boia. O cheiro do churrasco. A casa do Tio Leão. O chinelinho da Mônica e o tênis da Jessie. O tênis de luz vermelha. A Barbie que eu nunca tive. O melhor Natal. E o pior. A coleção infinita de livros. Os livros de borracha. De madeira. De plástico(...). Os livros que eu nunca escrevi. Os que eu ainda escreverei. A textura da serpentina. E dos confetes. O carnaval no clube. A casa da Tia Celeste. As pegadas do coelho-avô-da-Páscoa. O desejo de ter mais que 12 anos. O medo que segue até hoje. A cerveja do pai. A vitrola do avô. Os bordados da mãe. O açúcar roubado. Os beijos roubados. O jeito precoce. As comidas de água e farinha. A cozinha perfeita. Não era mais tão perfeita assim. A primeira montanha-russa. Despencou.



O tudo que eu fui e morreu. E tudo que eu ainda posso ser.
Nostalgia não é tristeza. Ao contrário.



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

aquém, mas não somente...

abri os olhos e era só terra
por mais que negasse o fato
continuava sendo terra
em um dia, despedida
n'outro, terra.

bichos e terra
bichos da terra.

pensava que nada mais poderia
ser tão vazio
e cheio de eco
ecoavam em mim inúmeras
dúvidas
dívidas
mas uma única certeza no meio delas:

''a vida era uma piada de muito mau gosto.'' - me dizia.

Pondo em risco outras vidas
colocando à prova inúmeras crenças
exilando outras tantas fés
carpindo tudo quanto era forma sem cor
desmanchando rios em lágrimas salgadas
solvendo em pó
tantos litros de amarguras.



era a balada de agosto, mais uma vez.

domingo, 12 de agosto de 2012

1%

sentia que precisava esvaziar meus pensamentos pois havia chegado aquele momento em que o ar está tão pesado, sua cabeça caindo e seu corpo sendo levado...era o meu tempo se esvaindo...
não pense que não parei pra pensar em tudo que estava acontecendo.
eu pensei por dez minutos, talvez até por uma hora, um dia...não me dediquei muito a refletir sobre meus atos. nem a agir com prudência e sabedoria.
e você sabia disso. sabia disso tão bem quanto eu, mas o meu orgulho ainda fala mais alto. abomino a racionalidade e, apesar disso, não nego o fato de ser, sim, a protagonista de minhas maiores aflições.
mesmo com os seus leves toques de ironia e rancor, não consigo deixar de sentir o seu grande desespero por não estar aqui comigo. mas quem pagará por isso? nunca entendi o porquê de procurarmos sempre os culpados, num impulso doentio de transmitir nossas angústias pr'o outro. eu não sou assim - e nem quero.
pensei em tanta coisa pra escrever e no momento mal consigo discernir pontuações e regras gramaticais. você fog(d)e (a) à regra.


deixa eu pintar o meu nariz.










e fingir(...)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Meu mundo

"Conforto alucinante, tranquilidade na clareira do caos
O ponteiro, ele rodou mais rápido no mesmo relógio de ontem
O que as horas guardam nos espaços do contra-tempo?
A mulher?

*
O desejo é um tempo parado
É quando se trocam as datas dos bichos e das flores
É quando aumenta a rachadura da velha parede
É quando se vira a folha, a folha da história
É quando se pinta um fio branco na cabeleira preta
É quando se endurece o rastro de sorriso
No canto dos olhos
Eu sei que a viagem é longa
A voz vai e vem
Você ta aí?
Você ta aí?
Ei, voce est aí?
Vontade de abraçar o infinito"





[Otto, Lirinha - Meu mundo]

domingo, 8 de julho de 2012

drão.

'quem poderá fazer
aquele amor morrer
nossa caminhadura
dura caminhada
pela noite escura...'

Isto não é uma ode à morte. São palavras dedicadas à vida. A vida que você me deu.

Não lembro o dia, mas era de tardezinha e não fazia sol. Você já estava no carro conosco, deitada em sua caminha (que só foi usada naquele dia) e com sua roupinha que te acompanhou até o dia de ontem. Eu tinha onze, você um.  Você não gostava da maioria dos brinquedos que comprávamos. Gostava dos meus bichinhos de pelúcia que tentavam sem sucesso imitar a sua pele. E você os enchia de carinho com sua língua e depois nós ficávamos assustados porque achávamos que tinha engolido algo perigoso. 
Perigo é não ter você por perto. 
Tu me vistes chorar como poucos. Me lembro do dia em que subiu na minha cama e começou a lamber as lágrimas. Eu pensava como poderia existir no mundo alguém pra secar as lágrimas de outra pessoa. Você zelou meu sono mais profundo, embora no meio da noite minhas pernas tentassem te expulsar da cama. E no dia seguinte lá estava você de novo. E de  novo, de novo...mas não hoje. 
No começo eu tinha medo e escondia meus pés em cima da cadeira - pra que você nem ousasse me cheirar.  Uns meses passados você já corria de medo do meu abraço que esmagava. 
Você me ajudou nas provas,
nas cólicas,
nas dores,
na solidão.
E me ensinou a amar de uma maneira que nenhum outro ser vivo conseguiu. 

Então era isso. Era desse modo que acontecia. A vida encerrava-se sem tempo extra. Sem despedidas e sem calor. Seus olhos já não eram mais os mesmos e eu compreendia isto. Compreendia que você precisava deixar esse vazio aqui dentro - que ninguém nunca mais irá preencher. 
Os olhos de jabuticaba. 
As roupinhas que você nunca usou.
Os incontáveis panos que você espalhava pela casa.
A tua respiração. O teu ronco. O teu choro. 
A sua barriga encostada na minha. 
A tua alegria. E a minha. E a nossa.

Tudo isso que você deixou e será sempre seu. 
Bem aqui dentro. 

Eu não sei onde você está, nem o que fizeram com você. E acho que nem quero. Abençoados aqueles que cruzaram o teu caminho por um mínimo momento.

Gostaria apenas da certeza que todo mundo, ao menos uma vez na vida, há de sentir um amor tão imenso e genuíno como este.


Para sempre minha. 


'Se o amor é como um grão
Morre, nasce trigo
Vive, morre pão'

sexta-feira, 22 de junho de 2012

+

saudade das tardes inspiradoras,
do céu nem sempre azul e do tempo nem sempre quente.
a bagunça no quarto interrompe meus devaneios
e talvez haja mais unha do que comida em meu estômago.
são restos vazios de nada,
mas ainda há vida pulsando
aqui dentro
e lá fora
e sempre...

domingo, 27 de maio de 2012

tons de casa.

Todos  os dias quero fugir por um momento de dentro de mim e voar dentro de outros corpos, onde a existência talvez seja mais fácil (?). Bobagem. Existir já é um caos completo e seja dentro de quem for, nada pode ser mais agonizante do que ter que existir. Nos delegam a função, nos botam com a cara no vento e nem ao menos dizem: 'Vai. Voa. Pode tentar o quanto for, você não vai conseguir. Mas tente. Viva.' São nulas as direções e os espaços que nos conduzem (ou tentam) a algum lugar. 
Aqui vai mais um momento de crise, onde não cabemos mais em nós mesmos. Onde o corpo é pequeno demais pra acomodar tanta emoção. E isso não é necessariamente ruim ou obscuro, do contrário ao que pensam. Isso simplesmente é. 
Deve existir alguma coisinha dentro de nós, algum compartimento desconhecido até mesmo pelos melhores homens de laboratório, um espacinho que incha tanto quanto podemos aguentar. E às vezes não aguentamos. E ai recorremos a qualquer objeto ou sujeito que diminua ou nos faça esquecer esse inchaço no peito, por um tempo. Às vezes esse tempo dura um mês, dois, um ano e já vi casos onde dura vinte. Até que esse sujeito-objeto (por que muitas vezes deixam de ser para nos servir.) deixe o espacinho inchar novamente.
E aí vem um novo caos...












"Eles dizem: 'Ei garoto! Você encontrou o que estava procurando?'
Isso significa que eles não me conhecem

pois está aqui e é isso o que eles não podem ver..."