sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A menina que amou o Sol

Aproveitou-se de seu corpo quase que inteiramente descoberto e entregou-se àqueles raios, que, timidamente, tocavam e iluminavam cada pedaço de pele. Fechou os olhos e imaginou o quão feliz seria repousar seu cansaço nos braços solares.
Esquentavam.
Suavam. Ambos. A atmosfera mudava. Aquecia. Vibrava.
O Sol já havia percebido a paixão da menina e, por andar muito sozinho, exceto pela companhia cinza das tristes nuvens de verão, aceitou-a como mulher. Como seria amar e fazer amor com um corpo terrestre?Como ser profundamente penetrada pelos raios de Sol? Num ímpeto de desejo, despiu-se do pouco que lhe cobria o corpo. Foi instantaneamente atingida por uma onda de calor que lhe penetrava o menor e menos perceptível dos poros. O Sol, em êxtase de ver aquele Ser tremendo em febre de amor, brilhava e queimava cada vez mais. Cedeu aos desejos da menina e penetrou pelos seus longos cabelos negros de ondas simetricamente desenhadas, tocou-lhe os lábios molhados, lamentando não sentir o gosto de sua língua. Beijou-lhe o suor do pescoço, escorregando pelo colo, para que enfim, pudesse acariciar-lhe os seios com o sutil toque de seus raios. Pôde sentir cada vértebra contorcendo-se tímida e secretamente.
Ficaram horas acariciando-se. Ela, pela energia que vibrava de dentro pra fora. Ele, através de todo calor que transmitia. Ela abandonara seu corpo (até então) de menina e, pela primeira  vez, soube o que era dar prazer a outro Ser. A gota de suor provocada pelo toque gentil do Sol percorria cada centímetro de epiderme até descer de encontro à vulva, aquele caminho que é todo mistério para uns, onde poucos homens haviam percorrido, mas o Sol parecia conhecer intimamente cada traço daquele corpo. Agora já eram um só. Não se sabia quem era Sol, quem era menina. 
Vibravam tanto que a Terra tremia inquieta. A Lua, que repousava, acordou num pulo assustado e, curiosa foi espiar o que acontecia ali do outro lado. Avistou um belo espetáculo e debulhou-se de inveja. Também desejava um amante terrestre.
Atingiram um alto ponto de desequilíbrio e leveza. Ela não sentia mais coxas, nem braços. Estava imerge em pensamentos de prazer enquanto o Astro mostrava-se mais brilhante e poderoso. Agora, porém, estava levemente enfraquecido - pois o amor tinha dessas, pensava. Cansa e extasia.

Reverberavam em gozo.
Explodiam.

Renderam-se ao cansaço e entregaram-se ao crepúsculo. A Lua ansiava por sua vez.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

+1

Agora já era tarde,
ela havia transformado-se em uma daquelas
pessoas
que preparam o café e sentam
no parapeito ou na sacada
e olham.
e, ao olhar, tenta dar uma outra vida
aos observados
construindo cachorros, amantes, móveis
tudo que dê mais sentido àquela história
algo que colocaria em sua própria.

agora ela uma daquelas
que bebem algumas garrafas
e gritam,
brigam no bar e no meio da praia.


era tarde,
era mais um sujeito que comprava pão às seis
e preparava o café
e sentava na varanda...



domingo, 30 de dezembro de 2012

Andava tanto pelos beiradas,
pulava tanto de galho e galho
e desacreditava em si
que um dia
o conto acabou.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

#

"O sistema é muito racional do ponto de vista de seus donos estrangeiros e de nossa burguesia de intermediários, que vendeu a alma ao Diabo por um preço que teria envergonhado Fausto. Mas o sistema é tão irracional para com todos os demais que, quanto mais se desenvolve, mais se tornam agudos seus desequilíbrios e tensões, suas fortes contradições. Até a industrialização dependente e tardia, que comodamente coexiste com o latifúndio e as estruturas da desigualdade, contribui para semear o desemprego ao invés de tentar resolvê-lo; estende-se a pobreza e concentra-se a riqueza, que conta com imensas legiões de braços cruzados, que se multiplicam sem descanso. Novas fábricas se instalam nos pólos privilegiados de desenvolvimento - São Paulo, Buenos Aires, a Cidade do México -, porém reduz-se cada vez mais o número da mão-de-obra exigido. O sistema não previu essa pequena chateação: o que sobra é gente. E gente se reproduz. Faz-se o amor com entusiasmo e sem preocupações. Cada vez mais, fica gente à beira do caminho, sem trabalho no campo, onde o latifúndio reina com suas gigantescas terras ociosas, e sem trabalho na cidade, onde reinam as máquinas: o sistema vomita homens. As missões norte-americanas esterilizam maciçamente mulheres e semeiam pílulas, diafragmas, DIUs, preservativos e almanaques marcados, mas colhem crianças; obstinadamente, as crianças latino-americanas continuam nascendo, reivindicando seu direito natural de obter um lugar ao sol, nestas terras esplêndidas, que poderiam dar a todos o que a quase todos negam."
[As veias abertas da America Latina - Eduardo Galeano]



Poetizar uma história de infinitas dores.

sábado, 8 de dezembro de 2012

quando o silêncio fala mais alto
é hora de repensar certas coisas.


de lembrar porque entrou nessa
mesmo sabendo que deveria sair.

sábado, 1 de dezembro de 2012

gosto muito de você, leãozinho.

Olha, eu não posso te dizer que vai passar rápido,
nem que um dia vai parar de doer.
Se for.
Posso dizer que, faz tempo, ando sofrendo com você.
Dói em mim também.
Não a mesma dor, mas com o mesmo sentido. Entende?
Sei que entende.
Escuta, eu ainda não posso te dizer que vai passar rápido.
Mas, você percebe que não está lá tudo tão mal?
Posso dizer que está tudo bem em não estar bem.
Em não sentir-se bem, mesmo querendo.

Se liga, não vai passar logo. Aceita uma breja?
"Não é preciso ser assim assado."




Te quiero, cumpa!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

outro dia do lado de lá





Outro dia do lado de lá

Dezessete, nove, pois... Dezenove, três, pois...
Tá escutando? Tá escutando?
Ando bêbado de lucidez, impregnado de realidade.
“Mantenha o controle!”- diziam-me.
Um cigarro, um trago, um pega, um tiro, um pico.
Um pico de felicidade, mais uma dose, por favor.
Não era esse o problema.
O problema estava em volta e não dentro de mim,
mas eles não ouviam, não observavam.
Certamente era mais fácil fechar os olhos.
Eu também gostaria de ter fechado os meus,
mas a madrugada no quarto falava mais alto,
e, junto dela, as paredes e as camas chamavam-me.
“Vai ser melhor pra você!”
Do lado de dentro éramos zoológicos, zumbis e zuretas.
Neste depósito de carne humana,
depositei todo meu resto de lucidez.
Enquanto os homens de branco
faziam daquele espaço entre muros
seu teatro particular.
Éramos seus fantoches preferidos.
“Mais um pouco de sossega leão, senhor?”
Tá escutando? Tá escutando?
Você tá me escutando?
O pátio ainda estava sujo
infestado de tristeza mundana,
tristeza humana e dejetos.
Os gritos à noite eram mais intensos.
Pior eram os gritos da cabeça,
da minha própria cabeça
encharcada de desejos secretos.
Era o diabo, estava eu no inferno,
no teatro dos vampiros
e os sanguessugas não éramos nós.
Invadiram-me com ondas na cabeça,
no cérebro fui sentenciado.
Em uma dessas descargas de energia
lembrei-me de minha criança,
do seus olhos que vagavam
e hoje não sei por onde vagam mais.  
Aqui os dias passam.
Até quando passarão, não sei.
Acho que não me importa.
sucumbi a tudo que ouvi,
Sucumbi às pílulas, ao prontuário
e aos homens de branco.
À infinidade de verdades
que me fizeram acreditar.
Já não me importa mais.
Tá escutando? Tá escutando?
Você tá me escutando?
Você deseja me escutar?
Dedicado àquele que joga a pedra e esconde à mão.
J. Gottschalk









Para a disciplina "O campo da atenção psicossocial"